Atitude do Pensar

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terça-feira, 10 de maio de 2011

A dialética de se doar


Solidariedade.
Constantemente deparo-me com essa palavra. E vale lembrar que seu apogeu se deu no governo de FHC.
Segundo estudos, o mesmo utilizou a incitação à solidariedade como uma forma de transferir um pouco a responsabilidade do Estado para a sociedade civil.
Bem, não sou daquelas que lança todos os males sobre o Estado e, em certo sentido, concordo com a solidariedade; voluntariado. Entretanto, acredito que cada um desses, deve trabalhar na medida certa.
O Estado com a garantia e efetivação de direitos, entre seus outros deveres. E a sociedade participando de várias formas junto ao meio social e político.
Porém, minha intenção aqui não é falar de Estado. Aliás, as férias que me dei nesse semestre em relação a faculdade, permite-me estar um pouco afastada dessa discussão.
Então vamos ao que interessa.
Lendo uma postagem de um blog que conheci recentemente, por meio da Lu, Borboleta, lembrei-me de tempos especiais.
Para ser exata, tempos em que eu tinha apenas 20 anos (hoje quase 30) e abandonei a cidade, me mudando para Curitiba, no intuito de transformar o mundo (crise dessa idade).
Bem, se lembram do livro Causa Nobre que já indiquei aqui?
Tudo iniciou de forma parecida com a da personagem. Namorava um menino que ia se mudar para uma tribo indigena lá pelos lados do norte. Eu, lógico, queria ir...
Por ele. Por mim. Pelo índios.
Mas o namoro acabou, ele foi para a tribo e eu para Curitiba.
Não mudei o mundo, mas fui morar em uma comunidade carente nesta cidade (acreditem, há pobreza e principalmente desigualdade naquele local).
De lá, fui para Ipameri, no estado de Goiás, onde conheci pessoas fantásticas e tão generosas que engordei 6 kilos em apenas 1 mês de estadia. Apresentava peças em escolas e discutiamos vários temas com a moçada. Me diverti muito e adquiri um conhecimento prático e de convivio super bacana. Depois fui morar em Ceilândia, no estado do Distrito Federal - o deserto do Brasil. Lá, além de vivencionar a violência e o tráfico - tão presentes naquele contexto -, descobri -me enquanto um ser político, e daí em diante, surgiu meu interesse pela política - interesse de conhecimento e participação política, não de partido.
Foram 6 meses que mudaram o percurso da minha vida, pois ao voltar para Belo Horizonte, decidi que iria lecionar para crianças em situação de risco.
Primeiramente, trabalhei como voluntária em uma ONG que possui algumas casas lares e abrigos e, após um ano como voluntária, fui contratada como Educadora Social.
Uma vez que já não morava com meus pais, deixei minha casa e fui morar com aquelas crianças. Convivendo com suas dores, dilemas, abandono, tristezas, vicios...

Relembrando desse tempo, meus olhos se inundam de lágrimas (sou piegas mesmo). E os rostinhos aparecem em minha mente. Contudo, as marcas do que fora aprendido naquele momento, permanecem, e influenciam em parte das minhas escolhas.
Compreendo que crianças sempre foram minha fraqueza, ou fortaleza, vai saber. Desde que me entendo por gente atuei em algum projeto direcionado à elas.
Não sei se essa identificação surge da fragilidade, ou da necessidade de que de alguma maneira eu mude o que ocorreu comigo.
Constantemente, tenho a sensação de que meus olhos refletem a dor delas - uma das dores que há em meu ser.
Isso acaba por refletir em algumas coisas apresentadas aqui, como isso: Ela, e não eu.
Contudo, o que mais me tocou naquele instante e o que tornou tudo mais interessante, é o fato de ter ido tão cheia de mim, pensando ter tanto a acrescentar, e dessa forma, me orgulhando de abandonar algumas coisas para desenvolver aquele trabalho. No entanto, o retorno e o aprendizado, veio delas - as crianças. Da forma como elas iam compartilhando sorrisos; lágrimas; amor; raiva; amargura; dores. E tantas outras coisas.
Naquele mundo tão delas. Meu. Nosso.
Mas um dado momento, percebi que queria fazer mais, ir além. Diante disso, saí para estudar e especializar na área de Direitos Humanos.
Atualmente, não tenho um contato constante com a maioria, encontro vez ou outra um na rua, ou em alguma vila que vou visitar. Mas também encontro-os em meus báus e gavetas, onde habitam registrados com muito amor.
Quando iniciei o estágio, fui trabalhar em uma vila na grande BH, vi tudo aquilo retornando. Não dei conta. Além do cansaço fisico, o emocional eclodiu. Desisti.
Sinceramente, não sei se retornarei a atuar com crianças, mas tenho me empenhado em conquistar meus sonhos, que inclusive, já foram partilhados aqui: A igualdade é branca?
Para quem sabe assim, de alguma forma, atuar pela mudança do nosso mundo - nem que seja um mundo meu. Pequeno. Uma casa. Um bairro...
Essa sou eu na foto, foi em uma apresentação de teatro em uma das Vilas de Belo Horizonte, eu representava um pintor com ar de artista plástico (risos).
Quem me conheço pessoalmente, vez ou outra diz algo como: você é boa. Gente, por favor, eu não sou boa. Antes o contrário, vez ou outra deparo-me com meus monstros e demônios. Talvez por isso mesmo faça algo para me redimir, uma vez que constantemente me deparo com um espelho límpido que me revela um eu egoísta e frívolo.
Contudo, com minhas ações, aprendo a dialética de se doar. E sucessivamente, recebo muito mais do que me empenho em dar.

[a primeira imagem vai para Lu, minha querida Borboleta nos olhos, na garganta e no coração. De onde conheci o blog que trouxe-me esse deliciar-me em lembranças, e que tem trazido tanto mais sobre ser mulher]

[a última vai para a Re, minha inspiração em trabalhos com crianças, voltados para o amor e cidadania]

11 comentários:

  1. Caramba que bela história vc tem moça. Parabéns! Sou muito critico sobre solidariedade, que vendem pra retirar o papel do Estado e isso acaba se tornando um instrumento de manutenção de um sistema ineficiente, mas enfim, a palavra solidariedade e a forma como vc a coloca em prática é em seu verdadeiro sentido, comunhão com outro, coletivismo e sentimento muito humano (ta faltando pra caramba, e as vezes ta até dificil de assumir isso) sem ilusões ou inocência... Nada mais a dizer. Parabéns!

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  2. Eu já comentei que gosto da forma como você escreve? Bacana mesmo.
    Nossa, você tem muita história pra contar, dá um bonito livro.
    Também não sou do tipo que joga toda a responsabilidade do estado, ele tem grande parcela de culpa é bem verdade, mas as coisas mudam de indivíduo para indivíduo, ou seja, as pessoas precisam fazer suas devidas partes.

    Espero que você possa reviver outras lembranças e produzir bons textos assim. (:
    Bisous =**

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  3. Que linda trajetória de vida.Quanto aprendizado a duras penas, mas tão válidos pra te tornar a pessoa maravilhosa que és.

    E vi IPAMERI... tive vizinhos de lá.Gente boa mesmo!


    Um lindo dia, beijos, tudo de bom,sempre!chica

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  4. Nao pude deixar de pensar quando disse nao foi com o índio para a tribo, mas aportou em outra, Curitiba!! rsss
    Sou curitibana sim e minhas raízes sao muito fortes (jamais as perderei) mas que tá infestado de "índio", literalmente por lá, eu nao posso negar.
    Você viajou bastante! E esse relato deve ser apenas uma parte de tudo que já deve ter vivenciado.
    Taí um trabalho que gostaria de ter me dedicado, causas sociais, mas acho do jeito que (também) sou piegas nao ia dar em nada. Do alto do meu egoísmo só fui solidária quando minha mae estava internada, e eu pra tentar aliviar o sofrimento da minha própria mae e das outras senhoras na enfermaria, contrariava suas dietas e trazia coxinhas para elas comerem, a gelatina era pra minha mae (ela nao podia comer nada), mas fiz tao bem em ter realizado esse último desejo delas, pois por incrível que pareca todas vieram a falecer.
    O meu ponto fraco sao velhinhos.

    * Eu bem que sinto vontade de ser militante também, mas estrangeiro é tao mal visto, que é capaz de ser apedrejada.

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  5. Tentando pôr os sentimentos e pensamentos em ordem pra poder papear. Primeiro, primeiríssimo, obrigada pela imagem. Tão, tão linda. Como você, aliás. Que bom saber isso tudo. Preciso te contar tudinho do meu tempo nos assentamentos, nas ONG's, ai, tanta coisa. Vou pro Rio em Setembro...não rola você aparecer por lá no feriado? hein? hein?
    Ah eu fico tão feliz com essa teia que vai se fazendo, eu, você, Rafa...e o peterson não é incrível?

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  6. Todos nós temos demônios, todos temos um pouco de frivolidade e egoísmo, não se culpe nem se cobre por isso. Você parece ser uma pessoa realmente boa, com um grande coração. Continue fazendo o que sente que deve fazer, mas não cobre de você mesma a salvação do mundo, como você mesma disse esse é um sonho dos 20 anos. Depois entendemos que mudar o mundo não é uma ação individual, e que também não vamos convencer todas as pessoas a nos ajudarem a transformar a realidade. O que podemos fazer é no máximo dar o melhor de nós nas pequenas coisas. Você pode achar que fez pouco, mas provavelmente aqueles que a conheceram sabem que na vida deles você fez a diferença.

    Parabéns por se importar e por fazer sua parte.

    Beijo.

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  7. Amei o texto, querida, as vezes quando a gente se doa aos outros nós percebemos que podemos aprender mais do que até mesmo temos para ensinar!
    respondi seu comentário lá no blog!
    e enquanto eu fazia aquele post eu pensei em você que bom que gostou!
    beijinhos colloridos

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  8. Boa noite, querida amiga Keila.

    Nossa... Ganhei o dia. Que postagem linda e emocionante...
    O trabalho voluntário é divino... É praticar Cristo!!

    Com muita admiração, um abraço apertado.
    Fique com Deus.

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  9. me senti tão pequena…que trabalho recompensador!

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  10. Egoísta e frívolo, acho q sou assim, talvez. Creio q meu niilismo e misantropismo chegaram a um ponto q não consigo mais ser solidário. Posso até sentir uma piedade, de momento, mas não penso mais em me empenhar, não quero mais me envolver em lutas. No entanto, admiro o q vc, Keila, e outras pessoas fazem.
    Prolfaças!

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  11. Nicolau, possuo essa mesma criticidade que você, principalmente pela herança paternalista que nosso país possue.
    Mas tenho descoberto que é possível ser solidário sem deixar de ser um indivíduo político.
    Obrigada.
    Bj

    Luana, é sempre muito bom ter você aqui.
    Essa discussão de Estado x Sociedade Civil dá muito assunto, discorrer alguma coisa aqui fica muito vago, mas obrigada pelo comentário.
    Beijocas

    Chica, o povo de Ipameri é lindo!!
    Nossa, sinto tantas saudades de lá, só não sinto dos quilos que custei a perder..rsrs
    Bju, querida.

    Cris, apesar de ter vivenciado coisas que nem imaginava existir em Curitiba, ficquei muito apaixonada pela cidade e claro, pelos curitibanos. Eu, que adoro u branquelo, sentia-me no paraíso.
    Segundo a ONU, Curitiba é uma das 5 cidades mais desiguais do país. Incrível, né?!
    Isso me causa arrepios: a forma como recebemos tão bem os estrangeiros e como isso raramente é recíproco quando somos os estrangeiros.
    Abraços e bjus

    Lu!!!!!!!!!!!!!
    Espero que leia essa resposta.
    Quero muito te ver, te encontrar, te abraçar, conversar sobre tudo isso e mais... Se o Rafa estiver junto então...perfeito!!!
    Olha, por coincidência estava agendando uma viagem para o Rio em outubro, mas vou verificar se posso adiantá-la e te falo.

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